Depressão na infância e adolescência

 

A depressão tem sido alvo de alerta, tendo em vista que está aumentando o número de casos todo ano. É considerada a doença do século XXI, segundo a Organização Mundial da Saúde a depressão será a doença mais incapacitante no planeta até 2020 e faz uma estimativa de que em 2030 a depressão ficará em primeiro lugar em causas de doenças incapacitantes ou invalidez, superando doenças cardíacas, pulmonares e até de acidentes de carro. No Brasil não temos ainda dados quantitativos exatos, mas no mundo houve um aumento de 18% de casos de depressão entre 2005 e 2015.

Esses dados mostram a necessidade de conscientizar a população para a seriedade da doença, sobre prevenção, identificação e tratamento. É uma doença muito séria, que traz alguns prejuízos na vida diária do indivíduo. Afeta crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, independe de classe social, nível de escolaridade, etnia e sexualidade.

Uma das grandes dificuldades em identificar a depressão na fase inicial de desenvolvimento humano, como na infância, se dá por saber diferenciar o que é do comportamento da criança e o que é patológico, analisando o comprometimento em seu funcionamento na família, escola e sociedade. Muitas vezes a criança que é quietinha em sala de aula, não incomoda a turma ou a família, passa despercebida, outras crianças podem manifestar dores de estômago, de cabeça, enjôos e com isso dificulta na identificação do que pode estar por trás, como a possível depressão.

Para que seja considerado depressão os sintomas não podem estar associados à efeito de uso de drogas ou outras doenças clínicas, nem de uma reação de luto por perda recente de uma pessoa importante, os sintomas geralmente causam um sofrimento significativo e prejuízo nas habilidades afetivas, cognitivas e sociais. 

Abaixo estão os sintomas da depressão, pelo menos cinco devem estar presentes a maior parte do tempo na vida da pessoa, por no mínimo duas semanas para que seja considerado com a doença:

  • Alteração de peso ou apetite (pode ter perda de apetite ou comer em excesso);
  • Alteração do sono (dorme muito, está sempre cansado, ou com dificuldade para dormir – insônia);
  • Alteração no humo (deprimido, ou pode ficar irritado)
  • Diminuição de interesse ou prazer nas atividades diárias que antes eram prazerosas;
  • Cansaço, fadiga ou perda de energia, desânimo;
  • Agitação, inquietação ou retardo psicomotor, ficar mais lento.
  • Diminuição da capacidade de pensar, de atenção e de se concentrar;
  • Sentimentos de desvalia ou culpa excessiva; e
  • Ideias recorrentes de morte e suicídio.

Este último sintoma sinalizado que é o pensamento suicida é muito grave, pois tem aumentado casos de suicídio em crianças e adolescentes, parece ainda ser um tabu que pessoas tão jovens recorram a essa tentativa de aliviar um sofrimento, mas acontece sim. Pais, professores e a sociedade devem estar atentos a qualquer sinal de tentativa de suicídio, como automutilação, brincadeiras de risco com intenção de levar a morte, desafios veiculados pelas mídias sociais, qualquer comportamento que ponha em risco a vida e a saúde da criança e adolescente devem ser interrompidos e acionados meios de proteção.

As causas e alguns fatores de risco para a manifestação da depressão são inúmeros, desde influência genética, como estressores ambientais, relacionamento familiar, até modelos psicológicos da criança e adolescente, que é a forma como a pessoa interpreta e percebe os eventos adversos, por exemplo, crianças mais retraídas e sensíveis, com baixa auto-estima, deficiência na autonomia e com distorções cognitivas (pensamentos inapropriados, irracionais e exagerados) são mais propensas a ter depressão, do que crianças expansivas, com características mais externalizadas, que conseguem expressar seus sentimentos e achar resolução nos conflitos, por exemplo.

Outros fatores de risco são mães ou cuidador que tem depressão, podem causar mais impacto para o aparecimento da depressão infantil, pois há uma dificuldade na relação de cuidado, já que quem deveria proteger, cuidar, educar e amar está fragilizado, necessitando de apoio. A criança pode ter sentimento de desamparo, abandono, rejeição e desamor, que afetará no seu desenvolvimento, podendo surgir o transtorno depressivo em qualquer fase da vida.

Relações familiares conturbadas, com conflitos, agressões verbais e físicas, violências domésticas, sexuais, distanciamento de um dos genitores, separação dos pais, morte ou doença na família dependendo de como os que estão próximos da criança aborda o assunto e vive essa adversidade perto dela, violência psicológica que é mais danosa do que a violência física, pois não deixa marcas visíveis e afeta muito mais o desenvolvimento subjetivo da criança, pois envolve humilhações, depreciações, rejeição, discriminação, desrespeito, hostilidade, críticas severas ao comportamento da criança ou sua aparência. Violência na escola tanto entre colegas, como com professores, destrói a confiança que é destinada à escola como instituição conhecida como fonte de proteção e educação. Assim como o medo e insegurança de estudar e viver em local de risco, pode deixar a criança mais vulnerável à depressão.

Diante de tantos fatores que podem contribuir para o surgimento do transtorno depressivo na infância e adolescência, o melhor seria prevenir, ou seja, investir nos fatores de proteção, como características individuais, ambiente e tipos de relacionamentos, para impedir ou reduzir o desenvolvimento desse transtorno. Logo o foco deve estar na família, com orientações e fortalecimento de vínculo, direcionamento para atendimento de saúde quando necessário, psicoeducação para desenvolver um relacionamento positivo, saudável, com comunicação assertiva e empática entre cuidadores e as crianças favorecendo um ambiente seguro e acolhedor. A escola e pode estar atenta ao desenvolvimento social, cognitivo e afetivo da criança e seu relacionamento familiar. Fortalecer as habilidades e potencialidades da criança, para que cresça segura, confiante e que possa ser competente socialmente. Quanto às questões sociais, seria trazer mais conhecimento à população sobre o transtorno e serviços associados para tratamento, disponibilidade dos profissionais que lidam com crianças e adolescentes estar atentos à saúde mental para atender de forma adequada.

Os tratamentos mais indicados são as terapias psicológicas individuais ou em grupos, terapia de família, tratamentos farmacológicos, nesse caso é específico aos médicos, o mais indicado é a psiquiatria, a medicação geralmente é um recurso que não é utilizado de início, só em casos mais graves ou moderados, depende da avaliação médica.

As crianças e adolescentes precisam ser ouvidas, observadas, respeitadas é uma fase muito importante do desenvolvimento e fazer a intervenção correta nesse período é possível amenizar os danos que o transtorno pode acarretar. É dever da família e da sociedade proteger a criança e o adolescente e velar pela sua dignidade.

 

Claudia Ximenes Guimarães

Psicóloga CRP 05/36891

 

Referências

Avanci, J. Q.; Assis, S. G.; Pesce, R. P. Depressão em Crianças Uma reflexão sobre crescer em meio à violência. – Rio de Janeiro: FIOCRUZ/ENSP/VLAVES/CNPq. 2008.

OMS - OMS registra aumento de casos de depressão em todo o mundo; no Brasil são 11,5 milhões de pessoas. Disponível em: https://nacoesunidas.org/oms-registra-aumento-de-casos-de-depressao-em-todo-o-mundo-no-brasil-sao-115-milhoes-de-pessoas/ Acesso em: 11/07/2019

Tuchlinski, C. – O Estadão de São Paulo - Depressão será a doença mental mais incapacitante do mundo até 2020. Disponível em: https://emais.estadao.com.br/noticias/bem-estar,depressao-sera-a-doenca-mental-mais-incapacitantes-do-mundo-ate-2020,70002542030 Acesso em: 11/07/2019